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Dificuldade de foco no trabalho: quando é estresse e quando investigar TDAH

Perder a concentração no trabalho é mais comum do que parece. Às vezes, a mente “pula” de uma tarefa para outra, o raciocínio fica embaralhado e o tempo escorre sem que nada avance. Em outros momentos, a pessoa até senta para produzir, mas sente um cansaço mental que impede qualquer continuidade. Essa dificuldade pode ser passageira, ligada a fases de tensão e excesso de demandas, ou pode apontar para algo mais duradouro, como o TDAH. A diferença nem sempre é óbvia, e por isso vale observar sinais com calma, sem julgamentos.

Quando a atenção falha por causa do estresse

O estresse costuma afetar o foco como uma tempestade: ele vem, atrapalha e, quando a fase passa, a atenção volta a funcionar melhor. Quem está sob pressão frequentemente relata pensamentos acelerados, sensação de urgência constante e dificuldade de “desligar”. A mente fica em modo alerta, procurando risco e tentando resolver tudo ao mesmo tempo. Com isso, tarefas simples viram um esforço enorme.

Alguns sinais aparecem junto com a falta de concentração: sono irregular, irritabilidade, dores musculares, queda de energia, alterações no apetite e um sentimento persistente de esgotamento. A pessoa pode até ter disciplina, mas o cérebro parece “cheio”, como se não houvesse espaço para planejar ou manter a linha de raciocínio. Nesses casos, a atenção falha mais por sobrecarga do que por um padrão antigo de desatenção.

Outro indício importante é a relação com o descanso. Quando o estresse é a raiz, férias, pausas reais e melhorias no sono tendem a trazer alívio perceptível. A produtividade pode demorar a retornar por completo, mas há melhora. Se, mesmo após períodos de recuperação, o problema permanece quase igual, vale investigar outras hipóteses.

O que costuma sugerir TDAH em adultos

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade não aparece apenas na infância. Muitas pessoas chegam à vida adulta com dificuldades antigas, às vezes compensadas por esforço, inteligência, rotina rígida ou suporte externo. O problema é que essas “muletas” podem falhar quando a vida fica mais exigente.

Um ponto-chave é a história: o TDAH costuma deixar rastros desde cedo. Pode ter havido dificuldade para terminar tarefas, esquecer prazos, perder objetos, se atrasar, procrastinar de forma recorrente ou alternar fases de hiperfoco com períodos de dispersão. No trabalho, isso pode se traduzir em começar várias coisas ao mesmo tempo, sofrer para concluir, evitar atividades longas e sentir que precisa de pressão extrema para render.

Além disso, o TDAH envolve não só atenção, mas também função executiva: planejar, organizar, priorizar, regular impulsos e administrar o tempo. A pessoa pode ter talento e conhecimento, porém se perder na execução. É comum ouvir frases como “eu sei o que fazer, mas não consigo começar” ou “quando começo, eu me desconcentro com qualquer detalhe”.

Perguntas práticas para diferenciar os dois

Uma forma simples de refletir é observar padrão, duração e gatilhos. Se a dificuldade de foco começou após uma fase específica — excesso de trabalho, luto, mudança de rotina, conflitos — e melhora quando a pressão reduz, o estresse ganha força como explicação. Se o problema é antigo, aparece em diferentes áreas da vida e gera prejuízos consistentes, a hipótese de TDAH fica mais plausível.

Também vale notar o que acontece quando a tarefa é interessante. No estresse, até atividades agradáveis podem parecer pesadas. No TDAH, pode existir grande capacidade de mergulhar em temas estimulantes (hiperfoco), mas uma enorme barreira para tarefas repetitivas, burocráticas ou longas.

Como é a investigação e por que ela deve ser cuidadosa

Investigar TDAH em adultos exige avaliação clínica detalhada, com entrevista, levantamento da história desde a infância e análise do funcionamento atual. Outras condições podem imitar sintomas parecidos, como ansiedade, depressão, distúrbios do sono, uso de substâncias, exaustão e até problemas hormonais. Por isso, o diagnóstico não deve ser feito por “checklist” rápido ou por autodeclaração. Uma avaliação bem feita evita rótulos injustos e direciona o tratamento com mais precisão.

Caminhos de cuidado e quando buscar ajuda

Independentemente da causa, existem estratégias que ajudam: dividir tarefas em etapas menores, usar listas curtas, reduzir interrupções, trabalhar por blocos de tempo e priorizar sono e pausas. Psicoterapia pode ser útil tanto para manejar estresse quanto para desenvolver habilidades de organização e regulação emocional. Em alguns casos, avaliação psiquiátrica entra como apoio, especialmente quando há sofrimento intenso ou prejuízo funcional.

E um lembrete importante: tratamentos variam conforme o quadro. Há situações em que se discute a indicação de cetamina, mas isso é específico, depende de critérios clínicos rigorosos e não tem relação direta com “falta de foco” isolada. O essencial é não se automedicar e buscar orientação profissional.

No fim, dificuldade de concentração não é preguiça nem falha de caráter. É um sinal. Entender se ela nasce da sobrecarga ou de um padrão neurobiológico é o primeiro passo para recuperar clareza, ritmo e bem-estar no trabalho.

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